quarta-feira, 28 outubro , 2026

Por que fisiculturistas usam insulina e o que torna a prática perigosa

O uso do hormônio por pessoas saudáveis voltou ao debate após a morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, em São Paulo. A causa da morte ainda depende de exames do Instituto Médico Legal (IML), mas o caso reacendeu o alerta de especialistas sobre os riscos do uso indiscriminado de substâncias hormonais.

Segundo médicos ouvidos pelo g1, a prática de combinar insulina com anabolizantes e hormônio do crescimento já se tornou frequente em alguns ambientes ligados ao fisiculturismo.

Insulina também tem efeito anabolizante

A insulina é responsável por regular a quantidade de glicose no sangue, permitindo que o açúcar entre nas células e seja utilizado como fonte de energia.

Mas o hormônio também possui efeito anabólico.

Segundo o endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a substância estimula a síntese de proteínas musculares e reduz mecanismos de degradação do músculo.

Por isso, atletas utilizam a insulina durante fases de ganho de massa muscular, conhecidas como “bulking”.

“Para quem tem deficiência e repõe doses corretas com critério, o remédio é seguro. O problema aparece quando alguém sem deficiência passa a usar”, explicou o especialista.

Estudo mostra associação com anabolizantes

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Sports Medicine – Open identificou o uso frequente de insulina entre fisiculturistas.

A pesquisa avaliou 92 atletas e mostrou que:

  • 43% admitiram usar hormônios regularmente;
  • Quase todos utilizavam esteroides anabolizantes;
  • 38% também faziam uso de insulina;
  • 30% combinavam hormônio do crescimento.

Segundo os pesquisadores, a substância costuma ser aplicada junto ao consumo de açúcar para evitar quedas bruscas da glicose.

Hipoglicemia pode levar ao coma

O principal risco do uso indevido da insulina é a hipoglicemia, condição causada pela queda excessiva da glicose no sangue.

Os primeiros sintomas incluem:

  • Tremores;
  • Sudorese;
  • Coração acelerado;
  • Fraqueza;
  • Confusão mental.

Nos casos mais graves, a falta de glicose no cérebro pode provocar convulsões, perda de consciência, coma e até morte.

O risco aumenta principalmente em situações de restrição alimentar intensa associada a treinos pesados.

Especialistas alertam que diferentes tipos de insulina também alteram a forma como o problema aparece. As versões de ação rápida podem causar quedas abruptas de glicose, enquanto as de longa duração podem provocar hipoglicemias silenciosas e prolongadas.

Uso é difícil de detectar em exames antidoping

Outro fator que preocupa médicos e entidades esportivas é a dificuldade de detectar a insulina em exames antidoping.

Diferentemente de outros hormônios, a insulina sintética utilizada por humanos é praticamente idêntica à produzida naturalmente pelo organismo e permanece pouco tempo circulando no sangue.

Por isso, a substância costuma escapar dos testes tradicionais.

Pesquisadores europeus estudam marcadores indiretos que possam indicar o uso hormonal prolongado, incluindo alterações no colesterol e em enzimas do fígado.

Mistura de substâncias aumenta risco cardíaco

Especialistas afirmam que a insulina raramente é usada sozinha nesses protocolos.

Em muitos casos, ela é combinada com:

  • Esteroides anabolizantes;
  • Hormônio do crescimento;
  • Estimulantes;
  • Diuréticos.

A associação pode provocar alterações cardiovasculares importantes, incluindo aumento da pressão arterial, arritmias, tromboses e hipertrofia cardíaca.

Segundo médicos, o número de casos de complicações graves e mortes súbitas relacionadas ao uso dessas substâncias tem aumentado nos últimos anos.

Uso sem indicação médica é proibido

O uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de performance é proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

No caso da insulina, não existe indicação para pessoas sem diabetes.

Especialistas reforçam que o uso sem acompanhamento médico representa risco elevado à saúde e pode causar danos irreversíveis ao organismo.

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